Poetic Justice

Lia Cachim

Análise de um segmento da obra fílmica Memento

A obra fílmica Memento, realizada por Christopher Nolan e baseada no conto Memento
Mori, da autoria de Jonathan Nolan chegou aos cinemas no ano 2000. Esta obra, no que
toca à sua análise textual, tem a particularidade de fazer o espectador acompanhar a
história através da perspetiva da personagem principal, Leonard, que sofre de uma
condição cerebral cujas consequências são a incapacidade de guardar memórias a curto
prazo e, por isso, a impossibilidade de criar novas memórias. O espetador tem, portanto,
informações limitadas ao longo de todo o filme, espelhando a experiência da personagem
principal. Narratologicamente, de modo a integrar um maior conhecimento e
compreensão dos acontecimentos e sequências da obra, esta está estruturada em dois
conjuntos de sequências que surgem intercaladas: as sequências a cores que narram a
história invertida no tempo e as sequências a preto e branco que narram a história na
ordem temporal correta, a ordem que acompanha a personagem principal em tempo
“real”.

O filme começa com um plano de detalhe, a cores, numa ordem invertida, onde se vê uma
fotografia Polaroid revelada a “desrevelar-se”. Este primeiro momento é também o último
momento da história, apesar de isto não ser óbvio ao espetador na sua primeira
visualização da cena. Segue-se a primeira cena da sequência a preto e branco e aí o
espetador começa a acompanhar o universo psíquico da personagem que guia a história,
sendo essa a verdadeira primeira cena do texto cinemático, num tempo que corre
frontalmente, ao invés de invertido. A terceira cena, a segunda (ou penúltima) da
sequência a cores, deixa claro ao olho atento o ritmo da obra e a sua ordem. O esquema
em baixo ilustra esta ordem:

Na ordem de cenas apresentada ao espetador, a primeira (útima) cena da sequência a cores
tem o seu início no final da seguinte (anterior). A confusão gerada por esta mistura de
cenas e este viajar no tempo da história coloca o espetador no lugar da personagem, que
possui uma noção de tempo limitada e, consequentemente, irreal.

A cena a ser destacada nesta análise encontra-se na espinha dorsal das sequências a preto
e branco (1:26:33 – 1:30:10). Ao longo da obra surge diversas vezes um nome, Sammy
Jankis, que se afigura como uma memória anterior ao traumatismo que causou a condição
mental de Leonard. Sammy é apresentado como um paciente que sofria do mesmo
distúrbio e cujo caso Leonard estudara e concluíra que, fisicamente, nada impedia Sammy
de criar novas memórias, deixando então as explicações da condição mental em aberto.
Nesta cena, a personagem principal questiona-se, quase como que num momento de
lucidez, se não terá feito o mesmo que Sammy e logo se precipita a concluir quais os
eventos em que participou Sammy, permitindo ao espetador fazer uma ligação entre esta
personagem secundária de uma linha narrativa secundária e a personagem principal e a
linha textual que ela segue desde o início da obra. Voltaremos a este ponto de seguida.

A última memória permanente de Leonard, ou pelo menos a que o personagem crê ser a
última memória verdadeira permanente, é a da sua esposa assassinada no chão da casa de
banho – assassinada pelas mãos das mesmas pessoas que lhe infligiram o traumatismo
que o deixou num estado condicionado de memória. Leonard vive então numa busca pelo
assassino sobrevivente, uma vez que acredita ter morto a tira um deles, apesar de não ter
sido encontrado um corpo e de as autoridades terem descartado essa hipótese. A busca
maníaca pelo assassino tem um desenvolvimento circular, repetitivo, uma vez também a
memória de Leonard assim funciona, ativada pelos mecanismos mnemónicos que cria
para se guiar, como as fotografias Polaroid com pessoas, lugares, objetos e respetivas
descrições e tatuagens que faz nele próprio de modo a não se perder nas informações e
supostos factos. Para quem assiste à obra, a coerência e credibilidade dessas informações
e factos começa a levantar questões, ceticismo, até, derivado da confusão (uma vez que o
universo psíquico em que o espetador está imerso se prende ao da personagem).

Na cena a destacar, Leonard conta o desfecho da história de Sammy e sua esposa. Ela,
que por amor não se deixava descansar até encontrar a resposta para a condição do seu
marido, aborda Leonard para que ele lhe dê uma resposta final. Leonard diz-lhe que não
existe nenhum motivo físico que impeça Sammy de criar novas memórias e a mulher
decide testar Sammy e o seu amor por ela. O filme leva-nos para uma cena (ainda nesta
sequência a preto e branco) que tem lugar na casa do casal. Os planos são
predominantemente frontais e de pormenor, desenrolando-se da seguinte forma: plano
frontal do rosto de Sammy, muito pacífico, completamente alheio aos acontecimentos
reais; plano frontal do rosto da sua esposa, que, algo nervosa, lhe diz que está na hora de
tomar a sua injeção de insulina; plano de detalhe da insulina e dos dedos de Sammy a
bater na seringa, antes de lhe administrar a dose; plano frontal da mulher que possui uma
expressão facial atenta, emocionada, ao tentar ler o que vai na cabeça do seu marido;
plano de detalhe no relógio de pulso da mulher, que atrasa o relógio. Esta sequência de
planos repete-se mais duas vezes e, à terceira injeção de insulina administrada por
Sammy, a mulher entra em coma. Foi a sua forma de testar se a condição do seu marido
era real, se o seu amor era real e, quiçá, pudesse ser maior que a própria condição mental
de Sammy.

No início desta cena, em que Leonard conta a história de Sammy ao telefone, questionase se não terá feito algo semelhante ao que Sammy fizera à sua esposa. Os planos de
detalhe dos dedos a bater na seringa remetem para um plano fugidio que surge
anteriormente no filme, numa sequência a cores, onde se pode ver uma mão (a mão de
Leonard?) a repetir esta ação, e este motivo do filme assume-se com uma enorme
importância (1:21:29). A importância desta cena, a qual se poderá chamar de “justiça
poética”, pelo uso desta mesma expressão por Leonard no início da cena, resume-se ao
entendimento, por parte do espetador, que a história de Leonard possa não ser bem como
ele a pinta na sua cabeça, no seu corpo e no seu discurso para com as restantes
personagens que o filme apresenta. Aqui, o espetador começa a ter a realização que a
busca de Leonard pelo assassino da sua esposa possa ser, na verdade, a busca por ele
próprio. Fica claro que a noção de realidade de Leonard é uma noção débil, pois ele cria
a realidade do grau zero a cada momento que passa, tornando-se aos olhos do público
cada vez menos credível e fiável. Se já a memória de uma pessoa sã é falível e subjetiva,
resta concluir que a memória da personagem principal é manipulada pelos seus próprios
desejos, anteriores à sua memória em si, desejos estes que talvez ilustrem a vontade de se
desculpabilizar por algo terrível. E talvez o próprio Leonard já se tivesse apercebido de
tal, uma vez que no seu peito é possível verificar uma tatuagem que diz “I did it in a dream
sequence”.

Como diz esta personagem, aos 24 minutos de extensão da obra fílmica: “Memory can
change the shape of a room, it can change the colour of a car. And memories can be
distorted. It’s an interpretation, not a record. And they’re irrelevante if you have the
facts.” É este o trabalho que o espetador tem de ter ao analisar a obra e cada um dos seus
momentos. Recolher os factos, que na obra se apresentam de forma dissimulada como o
motivo da seringa, de modo a não se perder na viagem interior de Leonard quando em
contacto com o mundo exterior e as ideias e pensamentos que lhe são impostas ao longo
do filme, por personagens que não sabemos também genuinamente ler pois as lemos pela
visão de alguém que repetitivamente as esquece

Poetic justice

Memento by Christopher Nolan

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