A Fera de Chaves

Open Call

Nasci em Coimbra em 1996.
Estudei na Escola Secundária Quinta das Flores, no Curso de Ciências e Tecnologias e recebi o meu diploma em 2014.
Paralelamente, aprendi sozinha a desenhar com a ajuda de BDs e desenhos animados, sempre numa busca exaustiva pela criatividade e fantasia. Com um background em Ciências e nenhuma experiência na minha área de sonho, pensei que Psicologia seria o curso superior certo para mim, por isso, entrei na Universidade de Coimbra no curso de Psicologia. Depressa percebi que o bichinho das artes e do cinema ainda estava bastante presente e gritava para que houvesse uma mudança.
Após muita reflexão, candidatei-me ao curso de Animação Digital da Universidade Lusófona, em Lisboa. Depois de três anos intensos e felizes, acabei o curso com bons resultados e três curtas-metragens que me deixam orgulhosa: “Inkfulness”, um filme introspetivo sobre a arte marcial Tai Chi; “Rosa Vento”, uma história de ficção distópica; e "O cão de Muge”, um documentário animado que utiliza ilustração para contar a história extraordinária de um animal pré-histórico com 7000 anos.
Em termos de escrita, para além de vários guiões para filmes animados, escrevi bandas desenhadas, contos e acabei o meu terceiro livro este ano. Nada foi publicado ainda, mas sonho ver as minhas histórias impressas um dia.
Trabalho há três anos na Bluepharma como Artwork Manager e Motion Designer. 

A Fera de Chaves

I

Já passou demasiado tempo desde que comecei a trocar cartas formidáveis com o ilustre Dr. Soveral. Tenho recebido vastos relatos dos terríveis assassinatos que têm ocorrido em Chaves, dos corpos encontrados no meio do bosque e das suas autópsias. Dos cheiros e dos elos macabros com lendas esquecidas.

O admirável médico, um estudante milagroso na sua área e um velho amigo meu, vive no norte do país há algum tempo. Depois de procurar um retiro calmo e totalmente brando, o Dr. Soveral deparou-se com uma corrente inigualável de tumultos e desgraças, que o levaram a partilhar comigo todos os detalhes macabros daqueles meses sangrentos.

As histórias que chegavam ao meu escritório na Universidade de Coimbra eram de uma aldeia pacata e simples, de um sítio ordeiro e doce. Eram, antes daquele tão terrível e estranho caso do corpo de uma mulher encontrado na floresta. As narrativas sobre os tão queridos vizinhos do Dr. Soveral foram subitamente substituídas por visões medonhas de lesões, cortes, infeções, lamentos e mágoas.

À medida que o tempo passava, os corpos acumulavam-se na sala de autópsias, mais detalhes bizarros sangravam pelas cartas do meu amigo. Obtive imagens que nunca mais esquecerei, retiradas apenas das descrições desenhadas em tinta manchada, que ganharam vida através da minha tão ativa imaginação. Li sobre queimaduras que produziam bolhas e pele preta, sobre cortes terrivelmente perfeitos, sobre uma substância viscosa que nunca parava de drenar das feridas desenhadas naqueles vultos sem vida. Uma matéria química que o meu estimado amigo nunca conseguiu descrever na perfeição, com uma cor que aparentava não constar do espectro visível da luz, uma textura inconsistente e comportamento imprevisível.

Como jornalista, a minha mente encheu-se de curiosidade mórbida, mas, como homem, sentia calafrios inconcebíveis cada vez que vislumbrava o nome do Dr. Soveral no meu correio. Quando abria mais uma carta notava na letra cada vez mais ofegante do meu amigo, nas tremuras e blocos totalmente manchados de tinta preta, nas palavras cada vez mais difíceis de compreender. À medida que as semanas passavam, reparei também que o seu discurso se tornou menos científico e mais poético, emocional, filosófico até. O médico falava de Deus, de anjos e demónios, do bem e do mal. Nunca, em todos os anos em que a nossa amizade durou o vi tão apavorado, um pânico incerto emergia das suas narrativas animalescas.

Como as descrições e teorias hipotéticas começaram a ser mais metafísicas do que lógicas, apercebi-me que tinha de ir ao encontro de livros mais empoeirados e fantásticos. Tinha de tentar encontrar um sentido naquelas cartas. Uma publicação de 1761 prendeu a minha atenção. O texto jornalístico falava de um animal desconhecido, uma fera que aterrorizou a região e matou quase todos os residentes da aldeia. À medida que a vela âmbar na minha secretária morria com cada segundo passado, sentia o meu corpo a arrepiar, os pêlos atrás do meu pescoço a levantar como se fosse um gato assustado. Por cada parágrafo do artigo, por cada palavra que descrevia a fera avistada em 1760, sentia a minha alma a arrefecer. Li sobre infeções, bolhas e pele preta, cortes demasiado perfeitos e sobre a terrível substância inefável.

A última carta que recebi chegou há duas semanas. 

II

Com o silêncio ensurdecedor do Dr. Soveral, a minha curiosidade doentia cresceu formidavelmente. Não conseguia fazer o meu trabalho diário sem pensar no destino do meu amigo, na sua alma desfeita… não conseguia ir à universidade e não ver o fantasma do médico cujos passos fantasma reverberavam por aqueles corredores congelados.

Cheguei a um ponto tão sombrio que me tranquei no meu apartamento, cercado apenas pelas descrições grotescas da fera de Chaves e pela minha gata, Carvão. Este animal de pêlo negro era o meu único conforto, nos dias longos e noites frígidas que passaram a seguir. Pesadelos invadiram o meu sono, por isso, jurei não dormir, jurei não fechar mais os olhos para não ver a imagem destroçada do meu amigo, e da besta que o consumia. 

Relatos destes horrores pareciam ecoar por toda a história. A cada dia que passava encontrava um novo artigo, um novo livro, uma nova lenda. As provas amontoavam-se na minha secretária suja, a cera morria com o calor de um fogo fulminante, os gritos do Dr. Soveral chamavam-me.

III

Adormeci na minha secretária outra vez, embalado pela luz alaranjada do amanhecer. As minhas omoplatas pareciam facas, a minha espinha curvada atormenta-me severamente.

“Não aguento mais.” Pensei eu. 

Peguei na minha mala de viagem e telefonei a um amigo para tomar conta da minha companheira felina. Depois, fui à estação de locomotivas para comprar um bilhete. Uma ida para Chaves. Com a minha bagagem em mãos e nervos em franja, deixei Coimbra para ir visitar um velho amigo.

A estação vibrava com movimento, como sempre, mas o comboio para Chaves estava assombrosamente vazio. As poucas pessoas que apanharam a locomotiva em Coimbra saíram muito antes do meu destino. Rapidamente fiquei sozinho numa caixa de metal fria e trémula. Tentei, em vão, ocupar a minha mente com uma leitura leve, mas as frases não faziam sentido, as palavras eram inconstantes e as letras desfocadas. Quando dei conta, estava a procurar refúgio na paisagem para além da janela manchada ao meu lado esquerdo, nas colinas verdes e nebulosas que pareciam nunca acabar. Aquelas encostas esmeralda eram estranhamente mansas, para cima e para baixo, penetrando nuvens cada vez mais densas.

De repente, pareceu-me ver algo no meio das sombras projetadas pelos montes infinitos. Um olhar, âmbar, de um predador. 

IV

Acordei bruscamente de um sono profundo. O alvoroço da locomotiva trespassava-me severamente, a luz nascida no horizonte magoava-me os olhos raiados de sangue.

O sonho que tive. Não me lembro. Era tão claro quando acordei, mas segundos depois era apenas uma sombra desvanecida.

Um aviso? Não. Um convite.

Pestanejei dolorosamente e engoli em seco, olhando para o meu lado direito, para uma janela distante e suja. Lá fora, uma pedra destruída e coberta de neve lia “Chaves”.

Rapidamente chegamos à estação. Um homem magro e pálido abriu a porta para me deixar sair. Uma brisa cruel invadiu a cabine, chegou de mãos dadas com uma névoa silenciada pelo inverno. Respirei fundo. Uma nuvem de vapor cresceu à frente dos meus olhos, a temperatura tinha descido de um segundo para o outro. O homem que segurava a porta nunca desviou os seus olhos arregalados de mim. Aquela cara comprida e seca era mais gélida que os flocos de neve que invadiam a locomotiva.

Peguei prontamente nas minhas coisas e saí do comboio. Senti sempre o olhar cortante do homem nas minhas costas à medida que descia as escadas estreitas da cabine. Até quando me distanciava da locomotiva, quando me direcionava para a aldeia. Um calafrio repentino fez-me olhar para trás. O vulto delgado e sombrio do revisor ainda se distinguia da sujidade da janela à sua frente. O seu olhar desconfortável permanecia em mim. Nunca o vi pestanejar. 

A locomotiva gritou e um véu escuro voou pela chaminé acima, misturando-se com os cinzentos do céu gelado. As grandes rodas metálicas que suportavam as carruagens começaram a trabalhar novamente. Num abrir e fechar de olhos, estava totalmente sozinho.

V

Caminhar por aquela aldeia foi só a ponta do icebergue. Foi assombroso e insólito, mas nada comparado com o que estava ainda por vir naquela noite. Após a minha chegada, não vi uma única alma naquelas casas pintadas de branco. Não se ouvia um murmúrio, uma conversa, um ladrar, um grito. Nada.

O rasto das minhas pegadas na neve branca crescia, e o aperto na minha barriga também. Comecei a distinguir uma voz sussurrante, um som que viajava com a brisa enregelada. Não me lembro quando começou exatamente, só me lembro do eco que criou no meu crânio, aumentando à medida que me aproximava da casa do Dr. Soveral.

Quando finalmente cheguei ao meu destino, o meu sangue entrou em fervura debaixo da minha pele congelada. A porta estava totalmente aberta. Entrei em casa do meu amigo com cuidado, tentei não fazer barulho. Na verdade, não sei porquê: eu sabia que apenas a escuridão dormia naquela habitação abandonada. Permaneci de pé, rodeado por sombras e um cheiro intenso a mofo. Por livros, pilhas de papéis e cartas nunca enviadas, pela letra trémula do meu amigo, por um tinteiro derramado no chão de pedra sujo.

Um sussurro. Juro que o ouvi. Estava a chamar-me.

Não, não pode ser. Tinha de ser a minha imaginação.

VI

Juntei tudo o que o Dr. Soveral deixou para trás. Pelo menos, tudo o que cabia na minha mala. E essa é a última memória que tenho do meu tempo na aldeia de Chaves. Depois, só me recordo de certas imagens e perceções soltas das horas seguintes. Algo tomou conta de mim, do meu espírito. Os momentos começaram a ficar dilatados e os murmúrios trazidos pelo vento gritavam. Lembro-me de estar calmo e sossegado dentro da minha carapaça. 

Uma luz. Lembro-me de uma chama intensa.

Acordei no meio da floresta, apenas a uns passos de distância de uma tocha pendurada numa árvore. De repente senti uma dor insuportável nos meus pés. Estavam completamente enregelados e doridos. Olhei para o céu, escassamente visível através das copas dos pinheiros. Era noite cerrada.

Nada científico explica o que me aconteceu naquelas horas perdidas. As vozes no vento, a falha no tempo, a falta de medo. Os laranjas e amarelos flamejantes devem-me ter acordado do delírio, uma sorte que certamente o meu amigo não teve.

Vozes. Desta vez não estavam na minha cabeça, mas sim no meio da floresta. Um cantar sinistro repetia-se pelo bosque, numa linguagem desconhecida. Respirei fundo. Senti um cheiro fétido a morte e antiguidade. A minha curiosidade mórbida invadiu-me os sentidos outra vez, comecei a marchar em direção aos ecos. Um deles era familiar.

Alguns minutos depois, finalmente consegui distinguir uma clareira circular à frente. Iluminada apenas pela penumbra, os meus olhos vislumbraram um pesadelo. A aldeia, ou o que restava dela, estava toda lá. Organizados numa roda perfeita, braços erguidos para o céu, a cantar num coro diabólico. Eles sorriam, mas apenas com os lábios rosados, pintados em caras ossudas e pálidas.

O Dr. Soveral estava no círculo. Quando o vi saltei ligeiramente, um sopro quente saiu do meu corpo.

Um sussurro familiar. Comecei a ouvi-lo outra vez. Segundos depois, o chão tremia ritmicamente. Passos animalescos aproximavam-se do círculo, a aldeia cantava mais alto. Um lamento sinistro ecoou abruptamente pelo bosque. O grito estridente fez-me fechar os olhos e cobrir a minha cara. As minhas mãos tremiam com o medo instalado no meu espírito. Quando finalmente acumulei coragem suficiente para enfrentar as sombras à minha frente, senti todo o meu ser fraturar-se infinitamente.

No meio do círculo, uma besta gigantesca erguia-se sob a luz do luar. Uma cara aparentemente humana tinha três bocas com sorrisos rasgados, dentes finos, terrivelmente afiados e viscosos. O resto da sua cabeça estava coberta com uma espécie de juba de leão, suja e torcida. Quase tapava os seus oito olhos pequenos e de cor âmbar. Um par de asas raquíticas caía pelas suas costas curvadas. Sem braços, o resto do seu torso estava coberto de escamas, e acabava numa cauda de escorpião.

Comecei a correr, sem olhar para trás. Era a minha única hipótese. Correr até encontrar civilização ou até as minhas pernas quebrarem.

Não me lembro de muitos pormenores depois de abandonar o meu amigo naquele círculo maldito. Só me recordo das cores quentes do alvorecer a embalar a estação de comboios de Chaves. Esperei sentado ao pé da linha, não sei quantas horas. 

Por fim, a locomotiva chegou. Corri, tropecei e cambaleei até à carruagem. Depois de me sentar e respirar fundo, reparei num detalhe monstruoso. Não sei se foi apenas o reflexo do amanhecer ou a minha mente distorcida, mas podia jurar que os olhos penetrantes e pequenos do revisor tinham uma cor âmbar demasiado familiar.

M.L. Vieira

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