à procura do coração perdido num sonho

Rodrigo Antas

“vou partir / como se fosses tu que me abandonasses” — Al Berto

            contava com minuciosidade os objetos que tinha nos bolsos do grande casaco preto que usava. receava ter-se esquecido de alguma coisa quando saíra à pressa da casa. o sol já morria entre prédios, enquanto a cidade virava-se para o lado de lá.
            mesmo assim caminhava a um ritmo lento. achava que não seria por alguns minutos que o condenavam a estar ali para sempre.

            caminhava pelas ruas ainda fiéis à corrente da memória. contemplava o fulgor nos olhos de vidro da sua cidade. sentia que fazia tanto parte dela, como ela parte de si fazia.
            reparou que alguém espalhara sinais de pequenos desastres pela rua. ignorava-os e continuava caminho em frente, tentando recordar-se, com esforço, das palavras que pensava ao sair da casa:
            — procuro-te nos cantos… procuro-te nos portos… — pensou baixo. mas não se conseguia lembrar.

            ao atravessar a avenida principal, passava por cima dos jardins e das flores loiras.
a pressa era tanta e o olhar sempre a vaguear por onde pudesse fazer porto. imaginava as futuras rotas, mas lembrava-se do pouco tempo que tinha e olhava em frente. tinha cuidado em continuar o seu caminho, rua a cima.
           na curva da rua, um lance de escadas abria-se à sua esquerda, desvelando o Beco da Amoreira. ajeitava o seu grande casaco preto e passava os dedos levemente pelo cabelo, recompunha a cara cheia de cansaço. procurava a porta número doze, no meio da confusão de portas do beco, quando uma voz irrompeu das janelas por cima da sua cabeça.

            esperançava um novo começo, uma nova catástrofe. mas no fundo sabia que não encontraria ali o que procurava.
            pressentia aonde o caminho o levara, mas deixava-se ir levemente pelo momento. escrevia os sonhos que não queria esquecer, quando um rapaz jovem, magro, de cabelo preto, o interrompeu ao abrir a porta.
            o rapaz pediu-lhe que entrasse rápido, pois com a porta aberta, o som da música fazia-se ouvir por todo o beco. assim o fez.
            a casa era familiar, antiga, com chão em madeira e umas enormes escadas que conduziam ao segundo andar. haviam pessoas espalhadas por todo o lado. bebiam cerveja, entre outras coisas, e fumavam. falavam muito alto.
seria mais difícil do que pensava, encontrar ali o que procurava.

            o rapaz pegou-lhe na mão e pediu que visse a casa. insistia com carinho na voz. pedia que observasse com atenção todos os pormenores, todos os detalhes que a casa tinha. as janelas pintadas com cores vivas, as paredes rabiscadas com frases e pequenos desenhos. o rapaz ia explicando o porquê daquilo tudo e na voz trazia sempre a familiaridade das ondas.
            a casa era tão magnífica que parecia ser feita do mesmo material que são feitos os sonhos. o rapaz conduzia-o, sempre agarrado à sua mão, por um grande corredor com filas de portas em ambas as paredes. cada porta tinha o seu destino, mas o rapaz continuava a puxa-lo em frente, em direção à enorme porta aberta no fundo do grande corredor. ao lado da porta conseguia ler-se na parede umas palavras, que diziam a porta de entrada para o sonho.

            a divisão era gigantesca, a maior da casa, talvez. ao entrar pela porta deparava-se com uma enorme janela e um enorme espelho. havia algumas pessoas espalhadas por toda a sala. bebiam vinho barato, entre outras coisas, e fumavam. não falavam muito alto.
          o rapaz apontou para um canto da sala com sofás, pedia no seu tom meigo que se sentassem e falassem um pouco. aceitava o pedido educado do rapaz, enquanto o olhar vagueava pela sala. observava as pessoas que estavam na sala, os objetos da sala. perguntava-se que papel desempenharia tudo aquilo, se estariam todos à procura do mesmo. o rapaz interrompeu o seu pensamento ao puxar o seu braço para se sentar.
           falavam de promessas no fundo do mar e da existência de labaredas na ponta das palavras. perguntavam um ao outro o seu mais antigo sonho. desenhavam conchas no branco das paredes, abraçados à solidão do canto da sala.

            o silêncio fazia-se ouvir. relembrava que estava atrasado, quando se levantou num sobressalto e vestiu o seu grande casaco preto, reuniu todos os seus pertences nos bolsos. despediu-se do rapaz beijando-lhe o sorriso. percorreu o mesmo caminho por onde o rapaz o trouxera. saiu da casa que já estava quase vazia.

           contava um a um os objetos que tinha nos bolsos. receava a traição da memória, por sair tão depressa.
            o sol morria entre os prédios. caminhava vagarosamente, achando não estar assim tão atrasado, comtemplando as ruas da sua cidade e em cada detalhe que elas tinham. então parou, e muito baixinho, como se os outros conseguissem ouvir o eco da sua voz no interior do seu mundo, retomava o caminho das palavras que pensava ao sair da casa:
            — procuro-te nos becos… procuro-te nos portos… nos pobres solitários embarcadouros…
            anseio o som de tua voz no rumor das águas… a sombra de tuas mãos no brilhar das conchas… o retorno de meu saudoso abraço…
            …meu coração perdido no sonho.
            mas apronta-se o tempo para novas rotas… e no silêncio relembro, vagarosamente, a tua partida…
— pensou para consigo.

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