Quimeras do cinema português

 Nome: Quimera (Chimera

         Realizador: Pedro Marques                Argumentista: Pedro Marques

Produção: Universidade Católica Portuguesa – Escola das Artes 

Data: 2020

Nesta 27ªsétima edição dos Caminhos do Cinema Português, tive a oportunidade de trabalhar de perto com o cinema atual produzido, tanto no país como no estrangeiro, pelas novas gerações de autores. Neste artigo queria sublinhar a curta-metragem de Pedro Marques, Quimera como um dos sintomas do cinema contemporâneo.
Curta de tempo, mas extensa na procura de interpretação que recusa ser dada. Na sinopse é dito ao espetador: Diversos manequins ganham consciência da sua anonímia, dançando agora na casca da humanidade em busca de algo que os verdadeiramente defina. Essa busca do primitivo, nas arestas dos limites escondidos. O local faz sobejar esses corpos na sua marginalidade. De casa deformada, talvez uma lixeira ou um palco deslocado na sua anonimidade.
O escuro como cem caras irreconhecíveis vestidas de verticalidade, de um fato sem pele, sem rosto, sem sangue (ou mesmo com sangue); o movimento desse escuro a-físico que assemelha o corpo humano ao desejo carnal, no sentido não-erótico (mas também erótico).
Na imagem nua, mais despida que a noite clandestina, afirma-se a absurda procura pelo outro, o toque do outro no movimento do outro (mas também do eu). A procura de um prazer quase sensorial deixa o espetador em estado de atenção para com a besta (de bestialis) cega, de passos calculados, de ânsia de ver.
À imagem une-se esse silêncio abismal, preenchido pelo não preenchimento naqueles corpos fantasmas, iguais perante o seu esquecimento.
A procura parece consumada na cena do derrame carnal, o descendente sangue é um dos planos mais longos desta obra; dá tempo para o coração pausar. Sublinho esta cena, o plano do espesso sangue a cair no nada, por considerá-lo o clímax desta obra fílmica, o ponto de êxtase, o efémero sangue que poderia definir algo concreto, um corpo quiçá, mas esgota-se na queda.
Quimera é um sintoma, um signo de atenção (a algo mais), um filme envolto numa ansiedade desfigurada que assemelho a um movimento ou revolta, permanecendo nu diante do olhar do atento caçador que por sua vez, espera a resposta da besta. Um exemplo do que se tem feito no país, mas principalmente, um novo olhar sobre o homem em relação com a arte nesta nova geração de realizadores e argumentistas. Um filme que fala sobre o que é (e o que não é, também) sem nunca falar.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=RM12ov_J9Go

*Imagem do filme.

Ana Marques Nogueira

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