Corpo pela arte: Acordes tradicionais, voz contemporânea

Por Lia Cachim

Por detrás de qualquer obra de arte, existe um corpo. Um corpo que transpira, respira, que desenha, que modela, que escreve, re-escreve, que talha, que compõe. Um corpo que se faz mãe e pai da sua obra. A rúbrica Corpo pela arte é um espaço destinado à partilha, à conversação, que surge de um desejo de apoiar e dar a conhecer a arte e os artistas.

Miguel Cordeiro

Miguel Cordeiro é um artista tondelense, o músico caixinha-de-surpresas que entre projetos e “tocar só porque sim” vai encantando os palcos e as ruas, surpreendendo com a enorme plasticidade que caracteriza as suas composições bem como as suas performances ao vivo.

Em jeito de introdução, gostaria de relatar um momento precedente à entrevista: encontrei-me com o artista para beber um fino antes de começarmos a trabalhar e, a meio do copo, decidi perguntar em tom de brincadeira “estás preparado?”. Ao que ele respondeu: “Não. Vais fazer aquelas perguntas mainstream do tipo quais são as tuas influências?”.


LC: Recordas-te de qual foi o teu primeiro contacto com a música? E quais consideras ser as      tuas maiores influências musicais, tendo em conta também esse momento?

Miguel Cordeiro: Primeiro contacto… O meu pai já gostava muito de ouvir música, tinha bué discos e eu ouvia os discos dele. Depois andei naquelas aulinhas de sexto ano de flauta e a minha professora dizia sempre que eu tinha muito jeito. Comecei a tocar guitarra aos 12 anos e acho que foi porque queria tocar o solo da “LatinAmérica” dos Jafumega. Depois disso comecei a ficar colado na guitarra, tocava todos os dias, nem pensava muito em seguir uma profissão [na música] mas tive um professor no décimo ano que tinha estudado Jazz e que me disse que havia uma escola na Branca, o Conservatório de Música da JOBRA, que tinha um curso profissional de Jazz. Fiz as provas para entrar, saí de científicos e fiz outra vez o secundário em Jazz. Quanto às minhas influências musicais, é tudo o que eu ouço, é um bocado eclético. Mas uma das minhas maiores influências, até por o ter conhecido pessoalmente, é o Fran Pérez, que durante muitos anos fez a banda sonora da Queima e Rebentamento do Judas, em Tondela. A primeira vez que eu toquei lá foi em 2012 e ele fez o projeto em 2012, 2013, 2014, 2015. Isso para mim foi um “abre olhos” incrível. Desde o primeiro dia em que cheguei lá, não sabia nada, era um putozito com a case da guitarra, comecei a ouvir alto som de guitarra distorcida e fiquei logo… Nunca tinha tido uma experiência assim.

LC: Em Coimbra não é difícil “tropeçar” em ti e na tua guitarra. Como tem sido poder voltar aos poucos a tocar em público?

Miguel Cordeiro: Eu durante a quarentena também não fiquei parado. Houve vários concertos, nomeadamente até alguns deles *clandestinos*. Gostava era de tocar mais as minhas músicas a solo mas isso está para vir.

LC: Tanto em Coimbra como em Tondela pareces ter ótimas ligações com outros artistas, projetos, instituições. Como tem sido essa envolvência e que frutos tem dado?

Miguel Cordeiro: Em Tondela, desde já, costumo colaborar com a ACERT, tanto na Queima do Judas mas também com pessoas que conheci através da ACERT, nomeadamente TRENóS, UHAI e Giant Surfers. Também tive a sorte de conhecer, em Coimbra, algumas pessoas de Castelo Branco com as quais comecei a tocar e a envolver-me em projetos também de Castelo Branco, como é o caso dos Wakadelics. Posteriormente também fizemos outras coisas como Cerveja A Vinte Cêntimos e toquei em projetos a solo do João Bargão e do Ricardo Brito. Sei lá. É bonito conhecer pessoas.

LC: Não há muito tempo fizeste upload de uma demo no YouTube, chamada “Um Deus”. Foi o primeiro passo de alguma criação que possa estar para vir? Um EP, talvez?

Miguel Cordeiro: Na verdade essa música foi feita para sair no disco, que deve sair entretanto, até ao final do ano, mas depois achei que não fazia muito sentido. E aproveitei para a lançar cá para fora só para não estar no computador.

LC: E quando é que vamos ter informações sobre esse disco?

Miguel Cordeiro: Em breve. O disco está a acabar de ser misturado, vai ser masterizado. Ainda falta também fazer a capa.

LC: Já tem um nome?

Miguel Cordeiro: Tem. Penso que sim, que este é o nome definitivo. Vai-se chamar “Umbigo”. Mas para já não quero revelar muitas coisas, só que vai sair até ao final do ano.

LC: Como descreverias a música que fazes e queres fazer no teu projeto a solo?

Miguel Cordeiro: Bem, o projeto só está a dar agora os primeiros passos. Isto por causa de umas canções que escrevi há cerca cinco anos. Passei bué tempo sem as lançar e achei que não as ia lançar. Mas acabei por decidir lança-las. Têm uma estética um pouco folk, uma coisa meia tradicional… Não quer dizer que os próximos discos vão sair com essa estética mas para já foi o que saiu. Quem sabe… Também não é só esse tipo de música que gosto de fazer. Também gosto de unir a palavra e fazer canções com outro tipo de estética. Ao mesmo tempo que ia escrevendo essas canções também ia fazendo umas completamente diferentes que, claro, acabaram por não entrar no disco, por não fazer muito sentido. Mas quem sabe o que virá a seguir.

LC: Última pergunta e, para mim, a mais importante porque sempre que te vejo a tocar, sozinho ou acompanhado, pareces estar a tocar um instrumento novo. Afinal, quantos instrumentos guardas na caixinha-de-surpresas?

Miguel Cordeiro: Quantos? Ok… Guitarra, baixo, piano, flauta transversal, bateria também (mas isso é mais ou menos). Já toquei trompete na banda filarmónica. Toco ao bicho (risos). E depois instrumentos tradicionais que vêm um bocado por associação, como o bandolim e a braguesa.

A conversa-entrevista com Miguel chega ao fim e, depois de mútuos agradecimentos e de muita sorte desejada para os projetos de ambos, guardámos uns breves momentos para captar um vídeo, em que o artista dá música ao Jardim da Sereia, na cidade de Coimbra, local onde decorreu a entrevista. O tema que se segue foi composto de modo a musicar uma letra que Miguel Cordeiro já havia partilhado na Má Sorte, em março do presente ano, que na altura não tinha nome definido mas que agora posso revelar, com a permissão do artista, como “Caminho de pó”.

Podem seguir o trabalho de Miguel Cordeiro através do Instagram https://www.instagram.com/miguelmcordeiro/
e da sua página no Bandcamp
https://miguelmcordeiro.bandcamp.com/
como também podem pesquisar a sua recente página no YouTube (link da demo “Um Deus”)
https://www.youtube.com/watch?v=

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