Crónicas da Resignação – Encarcerada

M de Martini

A Linda- que penso convictamente ser um diminutivo de Ermelinda- mora na Rua da Matemática há dez anos. Primeiramente, quero deixar bem claro que pouco ou nada sei sobre ela. Estudou Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, deve de rondar os 30 anos e vive numa casa com mais 5 pessoas (importante dizer que são todas raparigas, muito mais novas do que a Linda). Tem um ar rezingão que nem atenuado é pelo roupão rosa que às vezes usa e é muito hábil a lavar a louça. Para ser sincera, sempre que nos encontrámos, por mero acaso, nunca me cumprimentou e, das poucas vezes em que tentei ser educada e lhe disse algo em jeito de cumprimento, ignorou-me (ou talvez não me tenha ouvido, mas acho realmente que me ignorou).

Analisando a vida da Linda (que tem um letreiro com o seu nome na porta do seu quarto), pergunto-me se será carne da nossa carne. Vamos sentar-nos, Ermelinda:

Ponto 1: vives aqui há dez anos, és quase mobília. Queres explicar-me a razão pela qual espetaste um letreiro na porta do quarto em que vives há uma década?

Ponto 2: estudaste para ser advogada ou freira? Ora explica-me lá, só aqui para nós: vives com universitárias na casa dos 20. Bem sei que a Dona Piedade (a senhoria, que é uma criatura um tanto peculiar- faz questão de participar na compra do detergente da louça e tem uma sala para receber as suas visitas, repito, AS SUAS VISITAS, numa casa que aluga a estudantes (ah, e à Ermelinda) numa rua mesmo atrás da Faculdade de Letras. 

Mas bem, continuemos que não me quero perder: uma das regras da Dona Piedade é não levar rapazes para casa. Oh Dona Piedade, bem sei que é tradicional e quer o bem das meninas. Pronto, até posso aceitar esta regra, que a mim me passa ao lado, uma vez que a Júlia, a minha namorada, que acontece ser também sua inquilina, pode-me lá levar sem suspeitas.

Aleluia! Aleluia!

Agora o que já foge à minha capacidade de compreensão é o facto da Linda ter 30 anos, sem uma relação conhecida, apoiar e cumprir (e diga-se, se certificar que as meninas cumprem) esta regra. Aqui começa a minha teoria da conspiração. Antes da explicar, vou aqui apontar algumas notas:

  • A Linda vai passar alguns fins de semana fora (andará a pular a cerca?)
  • Irá a casa ver os pais? Ou a avó doente? Ou até a tia que a criou e lhe pagou a licenciatura?
  • Devo confessar que, modéstia posta a um canto, a minha teoria é mais interessante.

Quando a frustrada e um tanto revoltada Ermelinda frequentava o ensino secundário e sonhava ser magistrada, o seu pai confessou-lhe que as finanças da sua empresa de construção civil iam de mal a pior e que teria, por isso, de declarar falência. Após a bomba ser lançada, a pequena e virgem Linda viu o futuro que para si mesma havia sonhado voar para longe como uma ave migratória. Decidida a tomar as rédeas da sua vida e a estudar Direito na Faculdade dos seus sonhos, Linda casou-se, num ato tão nobre quão estúpido, com um afortunado banqueiro, acreditando na efemeridade da sua saúde. É imperioso apontar o estado do velhote: já na casa dos 80, dependente de assistência ambulatória, o Senhor Barreto, suscetibilidades à parte, tinha os dias contados. Ou isso pensou a pobre, agora em toda a extensão da palavra, Linda.

Incurável romântica, recusou-se a morar com um homem que não amava, com idade para ser seu avô e (aqui faço eu um apêndice) foder um velho sem tesão.

Ora, podia ser velho, mas burro não era, há que notar. O Senhor Barreto sabia perfeitamente as intenções de Linda para com ele (ou melhor, para com os euros que possuía). Mas surgiria melhor oportunidade do que esta para se redimir? Após levar uma vida de boémia, de beber mais do que a conta e frequentar bordéis, de nunca ter assentado e nem descendência ter deixado (isso pensa ele, mas esse assunto dava outra história), o Senhor Barreto sentia-se quase na obrigação de ajudar Linda, fazendo algo de benevolente na vida. 

Tudo se sucedeu. O Senhor Barreto e a Linda casaram-se no dia em que Ermelinda atingira a maioridade. 

O Senhor Barreto pagou e cobriu sempre os gastos de Ermelinda, e esta, em troca, passava os fins de semana a cuidar do velhote.

O certo é que já passaram cerca de 12 anos e, apesar de cada vez mais debilitado, vão ter de me desculpar o que vou de seguida dizer, o velhinho nunca mais morre! 92 anos e sempre a somar!

É importante lembrar que a Linda salvou o negócio do seu pai, do qual parte da família dependia monetariamente e tornou-se (ou isso especulo) o que sempre sonhou: advogada.

Não tentem encontrar a aliança no dedo de Ermelinda: é provável que não a use. Também acho uma perda de tempo a tentarem cumprimentar (acreditem, falo por experiência). Agora, se quiserem ver a Linda, posso quase precisar que está a cozinhar as refeições para a semana que se segue ou a ver televisão numa poltrona na sala de estar.

Uma coisa é certa: encontram-na na Rua da Matemática, a cumprir a sua pena, sem duração ainda definida. 

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