Renato Jorge Costa

Open Call

Cada passo é dado em concordância com batimentos paradoxais e movimentos interiores opostos. Neste corpo, abrir os olhos é o mesmo que cerrá-los; ao toque equivale a distância, e o pensamento corresponde à música que o mundo emite. Neste ritmo inquieto, a poesia escreve-se em pautas difusas e o verso, trazido à vida, ergue-se sem nunca regressar ao ponto de partida. Em mim permanece, aguardando a todo o instante a libertação através do olhar alheio. 

Plágio

A minha convalescença
Não é momentânea,
O meu pensamento prefere
Tirar os pés do lodo
E pular de tédio em tédio,
Mantendo a vida imóvel.

Sou uma pessoa diferente,
Não morei em campos
Tampouco indústrias
Que me tornassem múltiplo.

Nasci assim,
No rés-do-chão de vontades
Embaraçosas.
Não sou de frequentar cafés
Mas há qualquer coisa de opiáceo
Na minha posição de descanso,
Especialmente quando levanto
Os olhos.

Quando os fecho
Apareço-me em arrepio
Numa abismal falta
De originalidade,
Ainda que a singularidade
Da imitação
Se transponha lindamente
Em atos fora do papel
(e dentro dele)
[e dentro de mim]

O meu desassossego
Surge em quatro pontos cardeais
E cordiais na sua abstinência
Magnética,
Enquanto a vida fuma
Generosamente
Os meus pólos invertidos
E não sobram pontas soltas
Que queimem os pinhais secos
Da minha redondeza espiritual.

Cresci para dentro
Num mecanismo desastroso
Sem remorsos e meias tentativas
De noção,
Que aceito.

Há realmente metafísica bastante
Em não pensar em merda nenhuma.
Os rebanhos que guardo
Não precisam de pastor.

Instagram: www.instagram.com/caravela_na_areia/

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