Rafael Gomes

Open Call

Rafael Gomes, nasce na Germânia e emigra novo para o país Lusitano que lhe calou imensas  memórias da língua nórdica. Desde cedo descobriu o seu amor, não em ninfas do tejo e tão  pouco em aprimorados de primatas, mas sim em palavras. Palavra que se lê, que se ouve, que  se vê. Mas essencialmente, palavra que se sente. 
De fome insaciável por conhecimento, embarcou em áreas que ondulam pela dactilografia à  cinematografia agarrado também à melomania que há muito se apoderara dele. Amanhã o dia  será passado a procurar conhecer mais do mundo. A criar e a deixar-se criar. Ideias e mais  ideias. E receoso do tom pretensioso que a terceira pessoa pode deixar. 

A ponta é que paga!

É com a ponta dos dedos que dactilografo, são elas que suportam a estaleca das palavras que  se compilam, através de movimentos animados e correrias que vão da tecla A à Z, passando  por virgulas e interrogações, e de quando em quando ainda faço um desvio até à numeração.  São as minhas falanges distais – Com condolências destacadas às do indicador – que sofrem  com as angústias dos meus textos, com a ira dos caracteres que teclo, com a paixão com que  danço de uma letra para a outra, terminando com a ponta do dedo exausta que descansa finalmente no ponto final do teclado. 

É com alguma covardia que o nosso primeiro encontro com as ondas do mar seja feito com a  ponta do pé, que lá vai a cirandar pela areia molhada para sentir se a temperatura da água do  oceano corresponde ao nosso impulso de deixarmos o resto do corpo a marinar em banho  maria, durante minutos consecutivos acabando por deixar as peles das pontas dos dedos encarquilhadas. A ponta do pé pode assujeitar-se ao álgido das águas do atlântico como se  fosse o único material sensorial de todo o nosso coletivo biológico, o único soldado do nosso  batalhão corporal que está na linha da frente, ainda para mais sem farda nem capacete que o proteja, e é também a ponta que nos diz se a água do chuveiro está prontamente tépida para  deixarmos o resto do corpo mergulhar naquela temperatura desejável que não aleija ninguém.  Renunciamos a ponta porque não lhe damos o devido valor, é sempre a ponta a testar, a  experimentar, a aprender e a sacrificar-se. Impugno esta maneira frívola e aviltante de a  olharmos, ainda para mais, porque foi ela que nos disse tantas vezes para termos cuidado com  o efeito caustico da chama. E ainda hoje lhe devemos toda a gratidão por ser benevolente para  com o resto da nossa fisionomia. 

Já Variações cantava: 

“Quando a cabeça não tem juízo. Quando queres ver se a água escalda. A ponta do pé é que  paga. A ponta do pé é que paga. Deix’á pagar. Deix’á pagar. Olha a ponta do pé a queimar.” 

A ponta é a mártir do nosso corpo. É quem sacrificamos para que o resto do corpo não faça  “ponta de um corno”.  

Gabamo-nos de ter o cabelo arranjado assim que lhe cortamos as pontas, desgastamos  sempre primeiramente a ponta do lápis e não o centro, mesmo sabendo que a ponta do lápis quando nova e pronta a estrear tem um ar tão sumptuoso que só o maior energúmeno se  alardearia de estar a arruinar toda a sua beleza.  

Não me entendam mal, até porque não procuro usar os mesmos chavões que todos esses  defensores da ponta usam, em tribunais ou em becos escuros. Sou um delator daquele que  creio se um dos maiores flagelos do nosso corpo. Corpo esse, que sai sempre ileso de tudo e  todos, graças à ponta, tão maltratada, subserviente dos desejos do homem – Ai dela que  esmoreça – E que tem de conservar uma certa impavidez para ripostar toda a insensatez com a  qual a tratamos.  

Pensem na ponta do nosso nariz, o sofrimento incomensurável a que está sujeito, não só por  ser a primeira parte do nosso corpo sujeita ao fedor de uma meia suja ou à fetidez de um  presente do nosso animal doméstico, mas também porque quando caímos de cara e nos  estatelamos no chão, será sempre a ponta do nariz a primeira a embater no inóspito asfalto, esfarelando pele e osso. O que fazíamos nós se a ponta nos fosse escamoteada, sendo que é o  alicerce da nossa existência e sobrevivência?

“Isto é apenas a ponta do Iceberg”, não fosse já o adverbio clarificar a depreciação, as pessoas  falam da ponta do Iceberg com uma inutilidade que magoa qualquer vocábulo. E a verdade é  que o enorme bloco de gelo só tem 10% da sua massa despontada à superfície… do que nos  interessa 10% emerso? Até neste caso a ponta serve-nos de coisa nenhuma. Já “ir de uma  ponta à outra” … só a expressão fatiga, é usada como um sacrilégio sem perdão, um castigo  para o maior dos pecadores, e que o diga Sísifo condenado para toda a eternidade a  transportar uma pedra de mármore de uma ponta até à ponta de uma montanha. E nem  preciso de falar do toque retal nos exames da próstata, onde o médico nos diz que vai ser “só  com a ponta do dedo” e na verdade sentimos que entrou punho e antebraço, tal é o  desconforto na bilha. De nos deixar “até à ponta dos cabelos” … 

Ai, Ai, Ai… e eu nem queria entrar na área dos diminutivos, porque é de uma falta de chá este  tom pejorativo de depreciar algo que nós portugueses já tanto depreciamos. Pior ainda, e nem  necessito de contextualizar, quando alguém se tenta redimir a dizer “Foi só a pontinha”. Como  se não bastasse o ar de sonso, vem por acréscimo esta baixa estima pela ponta que é  “pontinha” e, portanto, não tem culpazinha nenhuma. Como me deixa tétrico esta forma  leviana de tratar a ponta, associando-a a tudo o que de menos bom existe no mundo, ou é  ponta e mola, ou hora de ponta ou a dor de levar um pontapé… 

Para todas as pessoas que desvalorizam a ponta deveria ser-lhes renegado o cafuné, onde a  prazerosa caricia no couro cabeludo é provocado, e enfatizo, pela “ponta dos dedos”. Cozinheiros e chefes jamais poderiam ser congratulados pelos seus pratos com o típico “é da  ponta da orelha”, não havia nem dedinho nem lóbulo para ninguém. Já aos atores era-lhes  negado até mesmo “fazer ponta” alguma em filme algum. Acrescento ainda, que para todos  aqueles que rebaixam a ponta, em períodos de êxtase sexual, não havia “ponta” para  ninguém, nem ponta nem nada que se lhe siga. Olha agora esta! Menosprezadores de pontas… Isto é absurdo! Nós portugueses não nos podemos dar ao luxo de desvalorizar ponta que seja. Desde a ponta dos dedos que repicam ansiosas na mesa em situações de exame, à ponta  delgada, cidade numa das pontas da ilha de São Miguel, e onde comi o melhor bife de atum  que o meu paladar alguma vez pôde experienciar. 

E isto que vos digo é pois, mais que justo, o que faríamos nós se se esquecessem de uma das  pontas da Europa? 

E se ainda não estão convencidos deste suplicio que só a ponta acata, observem o estado em  que as pessoas deixam a ponta das palhinhas, remoídas hediondamente, violadas por incisivos  famintos, insalivadas, vergadas sem salvação possível. Reparem só como a pobre e tacanha ponta da língua” é quem tem de acartar todo o conteúdo que somos ordenados a decorar… Mas por que raio havemos nós de ter tudo somente e apenas “na ponta da língua” quando  existem outras tantas zonas do nosso todo anatómico para azucrinar? Notem como na noite  qualquer fulano acha ter a legitimidade de nos pedir “a ponta do cigarro”, mas nunca o cigarro  todo. E como é que se recusa este funesta suplica em volta da ponta do cigarro? Seria desumano da minha parte se não a oferecesse de bom agrado… E depois fico ali, soturno e  ensimesmado, com esta gente que me faz também desvalorizar a ponta – e ainda por cima  aquelas três últimas inaladas de cancro sabem-me a vida… Esta gente merecia de facto a  ponta, a pirisca, a beata, somente e apenas. 

E depois, no fim de tudo, há ainda uns fidalgos, todos pimpões, que se admiram de haver  coisas que não têm “ponta por onde se lhe pegue”, então pois claro, depois de um vida a não  fazer Nestum e a melindrar a ponta é normal que ela fuja. Eu cá retaliava-me da mesma forma.

Desenganem-se se acham que a ponta vai tolerar esta crueza durante muito mais tempo, e  para aqueles que estão constantemente a “meter a ponta na poça”, recomendo-vos que  avivem a memória e que se lembrem que nem sempre é a ponta que se aleija. Quantas foram  as vezes que sentimos as suas represálias em toques de amargura? Quer na ponta da agulha que é o que realmente pica, quer na ponta do espinho que nos faz sangrar quando abraçamos  uma rosa. Já se ouve falar por aí da maior rebelião de pontas que alguma vez se viu… é preciso uma mudança imediata nos costumes civilizacionais e ter uma ponta de cautela.  

Meus caros portugueses, mais do que nunca, é crucial venerar a ponta, tal e qual, como se  fosse o resto. Deixar de tratar por conveniência aquilo que deve ser idolatrado, adorado até  mesmo nos mais variados cultos e religiões. É o início e o fim de algo que merece no mínimo o  nosso respeito, carinho a adorno. Devemos isto às pontas que tanto têm feito por nós.  

Agora vou deliciar-me com um café. Tendo o cuidado e respeito devido pela ponta da língua que é tão ou mais importante que o resto. 

Instagram: www.instagram.com/assim_vais_longe/

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