A Queda de Albert Camus: Uma Reflexão Sobre o Homem Desamparado.

Por Ana Marques Nogueira

Artigo Literário

Albert Camus, escritor nascido em Dréan, uma localidade na Argélia, autor de obras  como, O Mito de Sísifo (1941), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Homem Revoltado (1951), entre outros que trabalham o existir do homem moderno na Europa do século XX. 

A obra, A Queda, (no original La Chute), escrita em 1956, leva o leitor pela mão. Este quase que toma o lugar daquele a quem a personagem se dirige, numa conversa que é também relatos de uma vida. Dando conta do homem de frente para o absurdo existencial, percebemos as amarguras, desgostos e o desvio de pensamento, ao entender o humano como  inteiramente responsável pelas suas escolhas e não escolhas. 

Logo na primeira página somos abordados por Jean-Baptiste Clamence, outrora advogado agora juiz penitente. Esse homem atormentado que parece querer justificar a sua  vida de uma forma ou de outra, interpela um estranho com as suas reflexões, tanto à cerca da morte como de lugares como França ou Amsterdão, espaço em que se situa a narrativa. 

Uma reflexão sobre o homem moderno que nas palavras de Camus, «fornicava e lia jornais». Esse é o corpo da obra. O que parece ser um monólogo de Jean-Baptiste, vai-se acentuando enquanto comenta o homem através do seu lado mais humano e nu. Nota-se uma  espécie de tensão sombria, como se soubéssemos que há algo por ser dito, que serve para  guiar o protagonista na procura ingénua de significado ou justificação. Essa sensação de inquietude surge quando na despedida, situada no primeiro capítulo, pode ler-se, «Nunca passo, de noite, por uma ponte. É a consequência de um voto. Suponha, no fim de contas, que  alguém se atira à água. De duas uma, ou o senhor o segue, para o tirar, e, em tempo de invernia expõe-se ao pior, ou o abandona à sua sorte, e os mergulhos retidos causam por  vezes estranhas cãibras.» O âmago desta obra, é este “fazer ou não fazer” ser responsável na escolha e na recusa da escolha, verificar as marcas que moldam o homem social, aquele que  decide sair à rua e falar com outrem, que deseja ser chamado, reconhecido, posto à prova apenas para sofrer com essas cãibras fantasmas que se espalham pelo corpo do homem consciente das suas liberdades. 

Fundamenta as suas escolhas com uma atitude hedonista ou egoísta como outros lhe chamam. No processo de tomar uma decisão fá-lo sem pensar tanto nas consequências, mas sim no que tal escolha o fará sentir. «Precisava ser senhor das minhas liberalidades», ser livre  para escolher ou abster-se da escolha, mas com a consciência de uma vida efémera; fazer o que lhe convém dado o absurdo que o amarra apenas para o soltar. Vivia, como dizia, de  acordo com as suas convicções, não se atormentava com as suas escolhas pois, «Tinha sido  feito para ter um corpo». Comentava a vida boémia que levara, por onde ia de «festa em festa». As suas escolhas não pareciam ter consequências senão no seu espírito. Esmiúça a morte de forma crua, como um evento natural da cronologia humana que desvela não o amor que podemos sentir pelo nosso semelhante, mas o amor que guardamos em nós, numa atitude  de procura de paz, uma “palmadinha nas costas” que murmura “foste um bom amigo e és um  bom amigo ao levar estas flores em sua memória”.

Ao longo dos capítulos fala de modo breve sobre Paris e sobre a ponte que ilustrou no primeiro capítulo, como se o atormentasse falar e ao mesmo tempo não falar sobre o assunto. Como uma doença, uma marca não na sua pele, mas no seu consciente. Era esse o porquê de  estar ali, naquele café ou rua a tentar explicar-se e ao mesmo tempo a procurar perceber o modo como existia. 

As mulheres e mulheres e os romances tardios, curtos, mas necessários para compensar uma vida aborrecida; fugia disso através das escolhas, melhores ou piores, escolher, ditar, fazer era um abrigo para o desassossego. O porquê de querer o amor (sempre  amor) ou o reconhecimento de outros sem nunca se comprometer a um único amor ou às  obrigações que isso carrega, pois era livre; era essa a mão que o consolava de noite. «O meu  egoísmo culmina nas minhas liberalidades» era sobretudo um homem em paz com a sua  própria morte desde que fizesse o que quisesse em vida. 

Nas últimas páginas percebe a liberdade como um caminho isolado e solitário,  entende as consequências das escolhas, como às vezes, o mau estar de espírito, a chamada “consciência pesada”. O humano que carrega o peso das suas decisões, escolhas e não  escolhas -o homem moderno- «Ao cabo de toda a liberdade, há uma sentença; eis porque a  liberdade é pesada de mais sobretudo quando se sofre de febre, ou nos sentimos mal, ou não  amamos ninguém». 

Abrir este livro pode dar conta disso; uma escolha sempre tardia como a própria liberdade. Saltar para dentro de água ou não saltar?

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