Corpo pela arte: Do papel para a pele

Por Lia Cachim

Por detrás de qualquer obra de arte, existe um corpo. Um corpo que transpira, respira, que desenha, que modela, que escreve, re-escreve, que talha, que compõe. Um corpo que se faz mãe e pai da sua obra. A rúbrica Corpo pela arte é um espaço destinado à partilha, à conversação, que surge de um desejo de apoiar e dar a conhecer a arte e os artistas.

Com Cesariny e Keyser Söze Söze

Nos tempos que correm é urgente lembrar os artistas. Num Portugal parado, trancado em casa, é a arte que nos segura a sanidade.

Na primeira edição da rúbrica “Corpo pela arte” tenho o prazer de trazer ao público as histórias de duas artistas, tatuadoras, que apesar de se verem impedidas de praticar a sua profissão não se limitam a esperar: Cesariny e Keyser Söze Söze (Inês e Jennifer para os amigos).

Inês Cesariny diz ser natural de Vénus, apesar da sua mudança para a cidade do Porto, onde atualmente reside. O desenho sempre a acompanhou, não fosse ela de uma família de pintores e pessoas dadas ao gosto pela arte.

Cesariny: “Eu e os meus primos desenhávamos sempre naquelas toalhas de papel dos restaurantes, tenho algumas guardadas em casa (e continuo a desenhar nessas toalhas)”  diz, rindo com o “à parte” final.

Acredita que o seu gosto musical durante o seu crescimento influenciou também o seu percurso como tatuadora, pois sempre admirou a arte corporal dos artistas que ouvia – “Rock’n’Roll e Metal baby!”. Depois de terminar o ensino secundário em Artes Visuais, decidiu graduar-se em Design de Moda. Em tom de desabafo, confessa que “o mundo da moda é uma merda” mas apesar de tudo continua com a vontade de fazer roupa nos seus tempos livres, sendo um dos seus desejos criar o guarda-roupa de filmes (“se alguém estiver interessado [em fazer uma colaboração] que mande mensagem!”).

A um ano de terminar o curso, fez um apelo através do Instagram para a ajudarem a dar o primeiro passo no mundo da tatuagem. A intermediária entre Inês e a tattoo foi Maria do Vale, que apelida de “super simpática” e aproveita para convidar os leitores a conhecer o seu trabalho de joalharia handmade; Maria do Vale estabeleceu o contacto entre Cesariny e uma outra rapariga que, à sua semelhança, também estudou Moda e se virou para a tatuagem: Agataris. E, com a sua ajuda, entre bananas e laranjas e pessoas corajosas, Cesariny começou a tatuar.

A viagem de Jennifer Jesus aka Keyser Söze Söze tem paragens distintas. O seu país de berço é a Venezuela, onde viveu até aos 11 anos. Depois veio para Portugal, para a ilha da Madeira, de onde saiu aos 19 anos para prosseguir estudos no curso de Sociologia, na cidade de Coimbra.

Jennifer recorda as profissões que sonhou enquanto criança: cantora, bailarina, detetive e veterinária. Na Madeira, acabou por conhecer pessoas que a inspiraram a seguir o caminho de tatuagem e body piercing, mas o gosto pela Sociologia fez-se ouvir um pouco mais alto nessa fase da sua vida. Não se tornou logo tatuadora mas não deixou que isso a impedisse de ter a arte dos outros no seu próprio corpo.

Jennifer: “Em miúda via muitos documentários sobre tribos e modificações corporais e aos poucos fui me apaixonando pelas mesmas e pelas suas adaptações ocidentais . A minha paixão por perceber as formas como as pessoas se relacionam com o seu corpo fez-me seguir esse caminho na sociologia e acabei por fazer um mestrado cujo tema eram as marcas corporais no Punk.”

Durante o tempo em que tirou o seu Mestrado, Jennifer viveu numa República (a República do Kuarenta) como tantos estudantes (atualmente cada vez menos) que se mudam para Coimbra: e foi nesse espaço inspirador e na convivência com diferentes pessoas (e pessoas diferentes) que encontrou o fator chave para que retomasse a vontade de desenhar e o desejo de criar.  “Durante a tese de mestrado conheci uma amiga das repúblicas que sabia fazer tatuagens handpoke (tatuagens feitas à mão, sem recurso a máquina de tatuar). Só quando conheci está técnica é que decidi começar a tatuar, na altura apenas como um hobby.”; “Não sei bem em que momento exato houve o click de ser tatuadora, acho que foi um caminho muito fluído que se foi construindo. Fui conhecendo pessoas, fui tatuando cada vez mais, até que um dia surgiu a oportunidade de ir para um estúdio e lá fui eu.”

Quando questionada acerca das suas inspirações e influências, Jennifer enuncia os elementos da natureza e do quotidiano e afirma que o que vê em seu redor e a vida de todos os dias são a base do que tenta recriar nos seus desenhos. Não deixa de referir os seus elementos favoritos: o trash, o sujo, a paranóia; “mas também unicórnios, flores e animais fofinhos”, remata. Não posso deixar de fazer notar, numa nota pessoal, o equilíbrio perfeito que os elementos enunciados por Jennifer representam, dando-me ao direito de descrever o seu estilo como edgy but sweet.  

Deparando-se com a mesma pergunta, Cesariny, num tom bem disposto, responde: “Tudo (é muito básico dizer isto?)”. Acaba por ser também inspirada pelo dia-a-dia, desenhando uma flor bonita que vê na rua ou uma selfie que alguém publica e que a inspira. Sente que o seu estilo está em constante desenvolvimento, talvez devido ao seu gosto por brincar com cores e texturas. “À medida que me vou sentindo mais confiante a tatuar, vou acrescentando/experimentando coisas novas”. Atrevo-me a dizer, noutra nota pessoal, que a inspiração de Cesariny parte tanto de fora como de dentro, da sua vontade, curiosidade e dedicação. Uma das coisas que quer experimentar é fugir ao seu registo habitual de tatuagens de pequeno e médio tamanho: “Quero fazer tattoos grandeeees, tipo um braço inteiro! Voluntários aceitam-se, eu faço preço especial”, informa os leitores da Má sorte.

Jennifer, conhecida por aí pelos seus trabalhos do papel para a pele na técnica de handpoke, abraça um novo desafio-projeto: o de começar a tatuar com máquina. Os seus primeiros trabalhos nesta técnica têm direito a uma página especial no Instagram, @electric_keyser. Relembra que, quando o confinamento terminar, estará a tatuar no Biloba Tattoo e Piercing, em Coimbra, (a suspeita do costume, no lugar do costume!), e acrescenta: “também costumo ir a outras cidades tatuar, estejam atentos e se quiserem que vá à vossa cidade, podem enviar-me mensagem”.

Tendo já estado presente na cidade dos estudantes a tatuar, como guest do Biloba Tattoo e Piercing e também como convidada do Festival Apura para realizar um live-tattoo, Cesariny afirma com convicção que Coimbra e Lisboa são “sem dúvida sítios a [voltar a] visitar”, mas é na cidade Invicta que a podem encontrar a full time, no espaço novo que abriu com amigos que tem o nome de Círculo. Estende o convite aos leitores para que passem pelo estúdio e mostra a sua disponibilidade e vontade de chegar às pessoas:

Cesariny: Tenho coisinhas à venda (link in bio ahahah) se quiserem ajudar aqui a amiga – somos todos amigos no fim desta leitura – a sobreviver ao lockdown 2.0 . Mandem mensagem para projetos de tattoos ou ilustrações, se quiserem é só falar comigo”.  

Relembra ainda que no seu projeto dos “animais rabiscados”, 10% do valor das tatuagens é doado a abrigos de animais. Cesariny despede-se calorosamente com um único “Até à próxima! (façam de conta que tem aqui um daqueles emojis japoneses bué fofos)”.

Falando dos artistas por aí que possam estar a desmotivar, Jennifer dá o seu parecer:

Jennifer: acho que não podemos desistir dos nossos sonhos, este está a ser um momento muito difícil para todos e em especial para o meio artístico, caracteristicamente frágil em Portugal. Mas não podemos desistir e temos de nos reinventar.”

Recorda um momento bonito dos seus tempos um pouco mais verdes na tatuagem, quando teve a oportunidade de ir tatuar ao PicaPica Handpoke Meeting, na Rosa Imunda, na cidade do Porto: “Este momento foi super bonito porque tive a oportunidade de conhecer outras pessoas que utilizavam a mesma técnica de tatuagem que eu. Basicamente este é o melhor trabalho do mundo e todos os dias acontecem coisas mágicas e lindas.” A artista despede-se com um simples apelo: “Apoiem os vossos amigos artistas!”.

Na galeria podem encontrar imagens dos trabalhos favoritos de Inês Cesariny e Jennifer/Keyser Söze Söze.

Podem seguir também os seus trabalhos através dos seguintes links:

Cesariny:
cesariny.bigcartel.com

(Instagram) https://www.instagram.com/ce_sa_ri_ny/

Jennifer Jesus/ Keyser Söze Söze:

(Instagram) https://www.instagram.com/keyser_soze_soze/ e https://www.instagram.com/electric_keyser/

Em cima, tatuagens por Inês Cesariny.

Em baixo, tatuagens por Keyser Söze Söze.

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