O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont

Por Ana Marques Nogueira

Realização e argumento: Bruno Dumont. 
Elenco: Alane Delhaye, Lucy Caron, Bernard Pruvost. 
Director de Fotografia: Guillaume Deffontaines. 
Produção: 3b Production. 
Género: Comédia. 
Duração: 197 minutos. 
Distribuição: Leopardo Filmes.

«O Pequeno Quinquin» ou no original em francês, P´tit Quinquin, é um filme de 197 minutos, escrito e realizado por Bruno Dumont, que segue dois inspetores e a vida de uma pequena aldeia francesa atingida por uma série de mortes desconcertantes. O título remete para um dos personagens principais, um jovem de personalidade explosiva e curiosa que dá corpo à ideia de “mal inocente”. O filme apresenta-nos uma aldeia que serve de palco às mais diversas atrocidades como herança de um passado bélico revelando fragmentos de violência espalhados pelos descampados ou pelas mãos daqueles que dão nome ao inferno e nele dançam. O contraste presente em tela entre crueldade e cómico não é acaso, é o resultado de uma repetição que se vai descolando do sentido natural da vida, como Bergson afirma na obra, O Riso. E a paisagem rural francesa tão privilegiada em cena pelos campos verdes e ilhados torna-se no equilíbrio, no inalterável, na constante das oscilações cómico-trágicas. É, ao final de contas, a abertura dos conceitos, o que faz desta crítica uma aproximação do não conceito da obra, do inefável.

“Estamos no coração do mal” é uma das frases mais emblemáticas do filme e é sem dúvida a imagem que carregamos connosco no decorrer deste filme. No início podemos entender o dito num sentido figurado como fruto de algo de perverso que habita aquelas paisagens, pelo reconhecimento dos assassinatos que tornam o ar custoso de respirar. Mas a figuração de um mal exagerado transborda o sentido do imaginário há medida que emergimos na história, em cada silêncio gravado. O cómico surge desse excesso, do absurdo, da imaginação do mal como forma humana, pois não rimos do desconhecido, rimos do nosso semelhante, o que chega a amenizar a ideia de vil e a divertir o espetador. Porém, este mal é ainda um mal sem rosto que se recolhe na imagem de um “coração” inquieto, repetitivo. Como nos lembra Ricoeur, o mal não é alguém, mas sim uma mancha que palpita no homem, que nasce ao mesmo tempo que ele. Esse “mal” sem face, vai-se desvelando no absurdo do filme e a estranheza que parecemos sentir vai-se tornando risível.

O absurdismo que envolve o filme chega-nos através de uma imagem rica em corpos caricatos, desviados, nutridos de maneirismos e linguagens para eles comuns, mas tornadas risíveis dentro da tela, seja pelos gestos distraídos dos habitantes ou pela repetição ridícula presente em toda a obra; a tela enaltece essa estranheza como se fosse um dedo que aponta ao que faz rir. «O pequeno Quinquin», desenrola-se neste quadro bucólico preservado ao natural, nu, cru, sem embelezamentos, que transporta a vida sem os artificialismos da cidade, torna-se, quase, num existir amoral; no primeiro jardim tocado pelo pecado; na mancha.

O jovem Quinquin, parece mostrar um outro tipo de mal ao vermos os seus pequenos gestos violentos comparados com os horrores que habitam aquela aldeia. Percebemos o mal como um conceito difícil de ser explicado quando, no caso de Quinquin não é, ainda, um mal culpado ou consciencializado. O reconhecimento da mancha, ou do mal, parece surgir no filme pela entrada dos detetives na aldeia, porém, o enraizamento de uma vida despreocupada, escondida em si mesma, parece corrompê-los o que resulta numa atitude cómica que nasce, estranhamente, da fatalidade. A tragédia que se manifesta na brutalidade animal, no sangue ou na empatia que um outro sentiria quando de frente para um cadáver, é embebida pela comédia, seja nos ecos paternais imitados pelos infantes ou pelo atrevimento de fazer alguém rir num funeral. Este cómico aparece variadas vezes a partir dos planos longos sendo que, quanto mais uma imagem é enfatizada, mais ela nos parece absurda, estranha e deslocada. Esta dualidade entre horror e comédia resulta neste longo filme que segue as pausas e os gestos de perto e onde tudo o que parece compor a vida tem o seu espaço garantido. A obra de Dumont, é assim, este grande espetáculo que ilustra o movimento entre o mal e o cómico na sua relação com o homem comum.

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